O Intérprete do outro mundo


O poliglota da Serra do Caraça revela sua fé inabalável em Jesus Cristo, nega que seja espírita, conta como é o outro mundo e garante que quem morre não volta mais.

Há um longo tempo, o Padre Francisco Trombert, 76 anos de idade, da Congregação Lazarista, deixou de trabalhar em Itabira, onde celebrou, deu conselhos e atendeu a milhares de fiéis durante aproximadamente uma década. Houve um desentendimento com a Diocese de Itabira, representada pelo bispo Dom Mário Gurgel, que culminou com o afastamento do padre. Mas os seus adeptos, os mais fiéis possíveis, não o abandonaram. No início, distribuíram e ostentaram até decalques em veículos, manifestando o total apoio ao líder espiritualista. Mais tarde, sentindo-se vencidos, tomaram a decisão de ir até ele, na sua área de ação. Como se dissessem: “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”.
                Às 10 horas da manhã de todos os domingos, a pequena Igreja de São Vicente, no bairro São Vicente, na cidade de Santa Bárbara, enchia de religiosos de todas as partes, que se acotovelam para acompanhar e ouvir a missa celebrada pelo padre Lazarista, ocasião em que fala de seus profundos conhecimentos teológicos.
                As pessoas se referem ao padre Trombert como sendo espírita, um médium de grandes virtudes, confidente dos mortos, ou elo de ligação entre este mundo e o outro. Muita gente criou lenda em torno de seu nome, associando-se a projeções espíritas, materializações e exorcismos. Ele achando certa graça naquilo que dizem, nega tudo, embora admita que tenha operado milagres “através de Jesus Cristo” e seja um paranormal, atribuindo essa condição a uma missão conferida por Deus.
                Francisco Trombert nasceu na antiga cidade mineira de Conceição do Turvo, hoje Senador Firmino. Embora seja filho, juntamente com mais 8 irmãos, de pai suíço – de nome Alexandre Trombert – e mãe italiana – Tereza Vigorito – jamais saiu do Brasil. Estudou no colégio do Caraça e ordenou-se em Mariana. Fala, lê e escreve em 9 (nove) idiomas – português, francês, inglês, latim, espanhol, castelhano, alemão, hebraico e grego – aprimorando a sua atenção à origem das palavras, no mais minuciosos sentido etimológico.
Em 10 de agosto de 2000, o padre Francisco Trombert recebeu Itabira em Revista em sua residência, na Fazenda do Engenho, área do Caraça, município de Santa bárbara, onde funciona o seminário da Congregação Lazarista, ou de São Vicente de Paulo. E concedeu a seguinte entrevista.


O senhor tem muitos amigos em Itabira. Por que não mais celebra lá?


Pe. Trombert – A razão é simples. Se lá a Diciose é de Dom Mário e ele me suspendeu da função de celebrante, tive que obedecer. É bom que se diga que fui suspenso por motivos de ordem doutrinária e não disciplinar, como ele afirmou.


Que razão doutrinária é essa?


Pe. Trombert – Os folhetos das missas de Itabira negam o pecado original, negam o batismo e negam que a Igreja do Vaticano II, seja a verdadeira. Cristo disse que “quem quer e for batizado será salvo”. E fez recomendação para obediência total e irrestrita ao Papa.


A doutrina que o senhor prega é diferente da doutrina pregada em Itabira?


Pe. Trombert – A minha é católica


O senhor não voltaria a Itabira?


Pe. Trombert – Por enquanto não.


Não voltaria porque lá está o bispo Dom Mário?


Pe. Trombert – Talvez sim, mas prefiro não falar.


O senhor e ele já conversaram?


Pe. Trombert – Sim, éramos grandes amigos.


Muita gente fala que o senhor pratica a religião católica – espírita, seguida irregularmente por muita gente. Isto é verdade?



Pe. Trombert – Absolutamente não. Não sou espírita, não creio nos espíritos. O homem tem uma alma que é imortal, feita à imagem e semelhança de Deus.


Então, o senhor não é médium... É paranormal?


Pe. Trombert – Bem, não sei se sou, porque acho que paranormal é uma qualidade. Tenho muito medo de mentir para mim e para os outros e dizer que não seja.


Isto nada tem a ver...


Pe. Trombert – Santa Tereza disse que “a verdade é a humildade” ou que “a humildade é a verdade”. Dentro do esquema de definição da filosofia, a verdade é a adequação da mente com a coisa e não da coisa com a mente.


Que diferença existe entre paranormalidade e a mediunidade?


Pe. Trombert – médium significa intermediário. E neste caso se atribui a causa um campo que é até pejorativo em nossa religião. Não existe nenhuma relação entre mediunidade e paranormalidade.


Mas insisto que o senhor seja espírita. Até que prove o contrário...


Pe. Trombert – De jeito nenhum sou espírita. Tudo isto é história. Fiz estudo, com autorização de um arcebispo de Curitiba, onde morei e trabalhei, em terceiros de macumba, candomblé, umbanda, feitiçaria, magia negra. Freqüentei a tudo isto como estudioso de fenônemos.


O senhor estudou o espiritismo e saiu convicto de que ele não tem lógica?


Pe. Trombert – Perfeitamente. Estudei a fundo, quando consegui armazenar uma síntese perfeita de tudo e tinha devorado livros maravilhosos de outros países esclarecendo as teorias do espiritismo.


Os mortos não mandam mensagem?


Pe. Trombert – de maneira nenhuma. No campo da psicologia, onde se analisa os fenônemos da pessoa humana,, caímos direitinho na tese de Aristóteles, que diz assim: “Nada estará no intelecto humano sem que primeiro passe pelos sentidos”.


Como o senhor explica as façanhas extraordinária de Chico Xavier?


Pe. Trombert – É um paranormal em grau elevado.


Então, ele não fala com os mortos?


Pe. Trombert – ninguém fala com os mortos. Existe a parapsicologia, que estudamos, e nela há um fenômeno chamado de hipnose. Seria o décimo estágio letárgico.


É o senhor não crê também na reencarnação, que é o ponto de segurança do espiritismo?


Pe. Trombert – De maneira alguma existe a reencarnação e facilmente se chega a essa conclusão.


Dizem por aí que o senhor se materializa em várias partes diferentes. Explique isto.


Pe. Trombert – isto é conversa fiada, de espíritas. Não é verdade.


Há pessoas que já viram o senhor aparecer como um vulto que chega e some.


Pe. Trombert – há casos em que as pessoas se sugestionam, passando por uma insensibilização superficial. Depois muscular, caindo em estado de hipnose. É alucinação, e portanto, irrealidade. Essas pessoas se concentram na simplicidade delas, nos seus modos e dizem estar recebendo espíritos.


O senhor lê pensamento dos outros?


Pe. Trombert – bom, isto seria uma questão de hipersensibilidade.


O que eu estou pensando agora?


Pe. Trombert – não sei e nunca me interessei por isso.


Para onde a gente vai depois que morre?


Pe. Trombert – Só Cristo poderia falar, porque isto foge do conjunto das verdades racionais. Contudo, é certo que o ser humano toma um dos três destinos: se for perfeito demais (o que não acontece, a não ser no caso da mãe de Cristo), vai ver a plena felicidade; se tiver um pouco de imperfeição, ficará temporariamente privado da felicidade plena; no último caso, ficará eternamente sem ter a felicidade.


É a mesma história de céu, purgatório e inferno?


Pe. Trombert – Não da forma que as lendas criaram.


A vida aqui na terra não seria o inferno?


Pe. Trombert – Depende da forma como a pessoa a encara. Se tudo é passageiro aqui na Terra, o sofrimento também passa.


O senhor investigou o espiritismo. E diz ser uma pessoa que persegue a verdade. Por acaso, não perdeu a fé nessa busca, como aconteceu com grande maioria dos filósofos e pensadores do passado e do presente?


Pe. Trombert – Quanto mais estudo, quanto mais investigo, mais forte a minha fé em Jesus Cristo.


Se Cristo aparecesse para cada pessoa, na certa ele converteria essa pessoa. Não admite que a vida se mostra como insignificante, como sem sentido, como ilógica, e daí o homem siga descambando para a ignorância, para o crime, para a violência?


Pe.  Trombert – É  verdade. Uma das causas de tudo o que vemos, da violência, da corrupção, é a descrença do homem na Justiça Divina.


Mas as pessoas não tem culpa de perder a fé. A fé é um estado de espírito que independe de seu portador...


Pe. Trombert – – quem procura a fé a encontra. O homem deve primar a sua conduta principalmente nessa procura incessante e incansável.


Quem está roubando, matando, corrompendo e principalmente os políticos que se apoderam ou se apoderaram de bens públicos, todos pagarão pelos erros?


Pe. Trombert – É claro que sim. Não temos a mínima dúvida sobre isto.


Pagarão nesta vida, na próxima eleição ou no outro mundo?


Pe. Trombert – em qualquer das ocasiões receberão o castigo que merecem, proporcionalmente ao pecado.


O juízo final acontecerá?


Pe. Trombert – Claro. Ele é o julgamento anunciado por Deus.


Quem será o Senhor Supremo, aquele que julgará os seres humanos?


Pe. Trombert – Jesus Cristo.


Então ele voltará?


Pe. Trombert – Sim, mas não tão bonitinho como antes. No principio ele veio para nos salvar. Agora, virá para nos julgar, como prometeu.


Algumas religiões aguardam Jesus cristo noites adentro e durante dias infindáveis. Fazem noites de vigília, orando. Homens, mulheres e crianças ficam esperando esse milagre. É possível que Cristo chegue assim de  repente?


Pe. Trombert – De forma alguma. Milagres dessa natureza não acontecerão. Tudo será naturalmente.


Esse momento é o apocalipse?


Pe. Trombert – Sim.


Acontecerá em breve?


Pe. Trombert – Pode ser hoje, amanhã ou daqui a mil anos.


Deus perdoa burros como nós que não acreditamos nisso?


Pe. Trombert – É verdade que você não crê?


Cristo, em forma de verdade, não viria dentro de nós?


Pe. Trombert – Talvez seja essa uma forma prevista.


Na época em que veio, disse Jesus cristo que atearia fogo no mundo. Como a gente deve interpretar esse Cristo incendiário?


Pe. Trombert – Exatamente aquilo que você me perguntou sobre a fé. Isto significa que ele quis forçar as pessoas na busca da fé e da verdade.


O Senhor concorda que crer não depende do ser humano. Há pessoas que associam a ignorância à fé. O que o senhor diz?


Pe. Trombert – O homem deveria entender que ele é muito pequeno para não admitir a existência de Deus. Assim sendo, desse principio de humildade deveria partir para encontrar a verdade e a fé.


Então, o homem é um animal racional burro?


Pe. Trombert – Animal racional porque calcula, tem o poder de fazer cálculos e está ligado intimamente a Deus, a sua origem. Mas é ignorante na acepção do termo. Somos uma partícula muito pequena, ínfima, neste grande universo.


O que significa religião?


Pe. Trombert – Exatamente isto: religar com Deus.


Que religião é a verdadeira?


Pe. Trombert – A que Cristo nos delegou, a católica apostólica e romana.


Cristo não era romano, mas judeu. Como o senhor explica que tenha fundado uma religião romana?


Pe. Trombert – ele fundou uma religião para o mundo.


E como ficam as demais seitas que também pregam o cristianismo?


Pe. Trombert – Você bem disse: seita. Seita significa partícula, pedaço, divisão. Não é o elo verdadeiro.


As outras religiões não são verdadeiras? Outros caminhos não levam o homem ao criador?


Pe. Trombert – Olha, veja só: nem Buda, nem Confúncio, nem Kardet, nem Brahma, nem Maomé, ninguém me convenceu de que era o Deus verdadeiro, porque não tiveram argumento, nem condições.


E cristo obteve essa façanha. Como?


Pe. Trombert – A bíblia é a verdadeira mensagem de Deus, uma prova inequívoca de que ele existe e age em nós.



Todas as religiões tem bíblias e todas as bíblias são diferentes...


Pe Trombert – Li e leio muito  sobre as religiões, em vários idiomas, principalmente nas línguas primitivas. O latim, o hebraico e o grego nos dão condições para uma investigação ampla e perfeita. Eu me convenci de que Cristo é Deus e Deus é Cristo também lendo crônicas de autores neutros, que viveram em sua época.


Cite um desses cronistas...


Pe. Trombert –  Um deles foi Flavius Josephus.


O que ele contou?


Pe. Trombert – Muita coisa sobre a vida de Cristo e especialmente sobre milagres inquestionáveis.


Permite a nós agora defender a ignorância. Ser humano algum nesta vida atribulada de hoje tem o tempo de estudar como o Senhor tem. Com essa dedicação toda ser tornou sábio, não é?


Pe. Trombert –  Asseguro a você que nada sei. Homem aprende muito para chegar à conclusão de que é um pobre coitado.


Quando o senhor vê alguém morto, vai lá fazer a encomendação do corpo, rezar e tudo o mais. Como pessoa piedosa que é, tem pena de quem: do defunto ou dos seus parentes?


Pe. Trombert – Tenho pena dos que ficam. Quem morreu, encontrou Cristo. Deve ter passado por um túnel escuro, imenso, e aí deu com ele - Jesus. Normalmente, disse: “Oh, Cristo! Eu jurava que aqui estava a morte, mas encontrei a vida. Que bom!”


Quem fica, sofre por ficar privado do ente querido e por não saber para onde ele foi...


Pe. Trombert – Mas sofre sem sentido algum, pois Deus, que fez o mundo, é responsável e ele dá conta de suas coisas. Nós somos meros espectadores...


Que conselho o Senhor dá para as pessoas que vivem desacreditas de tudo?


Pe. Trombert – O homem precisa se concentrar no princípio da fé para tornar o mundo melhor, para resolver os seus problemas materiais, para alcançar a paz. O que deve fazer é só pensar, nisso, na procura de Deus e o resto deixa por conta dele.

 

Um líder se vai

Falecimento do padre Francisco Trombert deixa lacuna nos meios religiosos da região Centro-Oeste.
Ele nasceu na antiga cidade mineira de Conceição do Turvo, hoje Senador Firmino. Embora seja filho de pai suíço, Alexandre Trombert, e de mãe italiana, Tereza Vigorito, jamais saiu do Brasil, onde aprendeu nove idiomas: português, francês, inglês, latim, espanhol, castelhano, alemão, hebraico e grego.
No dia 14 de setembro de 2000, aos 83 anos de idade, morreu em Santa Bárbara, onde se encontrava já doente, o Padre Francisco Trombert.
Estudou no Colégio do Caraça e ordenou-se padre em Mariana. Viveu alguns anos em Itabira, sendo os últimos no Seminário da Congregação Lazarista, na área do Caraça.
Uma vida, uma obra – Irmã Cristina Chiovato escreveu sobre ele: “Há pessoas que vêm a este mundo com missões muito bem definidas pelo Criador: ser as mãos da Providência para que as pessoas possam crer no Cristo a quem seguimos que é o Deus Vivo, fonte de ternura, a alegria e perdão.”
O padre Francisco Trombert, Sacerdote da Missão, com certeza é um desses iluminados, gigante espiritual, merecedor da mais alta admiração. Deus pensava, falava e agia por seu intermédio, sendo próximo, colocando-se com o coração no caminho do outro.
É verdade que nosso coração se aflige pela realidade da separação das pessoas que amamos e que permanecem vivas em nós, deixando vazios importantes. Tê-lo conhecido foi uma graça muito grande.
Uma vida tão dinâmica e piedosa, diferente de todo o mundo, graças às suas habilidades, deixa profundo pesar a todos que com ele trabalharam ou lucraram com sua influencia, amizade ou convivência. Tristeza essa que não dá para esconder.
Padre Trombert partiu para a eternidade, deixando em cada um de nós o vazio de ao mais poder contar com o calor de seu afeto, de sua firmeza de princípios e de sua bênção concentrada, de resultados excepcionalmente  satisfatórios, não só quanto à cura de doenças físicas e psíquicas mas também no que diz respeito às transformações dos seus pacientes em pessoas mais otimistas, capazes, alegres, da mais viva inteligência, confiantes, empreendedoras e cheias de fé. Seus dotes paranormais, que causavam surpresas, eram marca registrada dele.
Felizes os que como nós tivemos o privilégio de sua intimidade e de sua convivência.
Senhor, não deixe que a dor de havê-lo perdido nos faça esquecer a alegria de tê-lo tido conosco.

Fonte: Revista Defato / Outubro 2000

Colaboradora: Maria Abade (Marizica)


 

 



 

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